Olá, caro leitor. Estamos mais uma vez aqui para compartilhar uma história religiosa, uma perspectiva ou um fato informativo, se preferirem. Este artigo surge após uma discussão que tive recentemente, na qual tentava explicar que no Antigo Testamento não há menção explícita ao céu ou inferno, muito menos à recompensa eterna. Estes conceitos, argumentava eu, foram introduzidos no Novo Testamento após o que os cristãos consideram a morte e ressurreição de Jesus, emergindo do que é conhecido como o reino dos mortos. O Sheol: A morada das almas no Antigo Testamento No Antigo Testamento, encontramos o conceito de Sheol, o lugar dos mortos no judaísmo pré-cristianismo. Diferente da visão dualística do inferno e do paraíso que se consolidaria posteriormente, o Sheol era um submundo sombrio e silencioso, onde todas as almas iam após a morte, independentemente de suas ações em vida. Lá, elas existiam em um estado de relativa paz ou inquietação, sem a presença e o favor de Deus. Algumas características de Sheol: É um lugar subterrâneo: Sheol é frequentemente descrito como estando “lá embaixo” ou “nas profundezas”. É um lugar de escuridão e silêncio: Sheol é descrito como um lugar sem luz e barulho. Não há julgamento em Sheol: Diferente do inferno cristão, Sheol não é um lugar de punição. É simplesmente o lugar onde todos os mortos vão. É claro que a concepção de Sheol evoluiu ao longo do tempo e atualmente há alguma ambiguidade na Bíblia Hebraica sobre sua natureza exata. Alguns textos atuais sugerem que Sheol pode ser dividido em seções para os justos e os injustos, enquanto outros mais antigos o retratam como um lugar único para todos os mortos. É importante ressaltar que o conceito de Sheol é diferente de ideias como o purgatório católico ou o inferno. Sheol não é um lugar de tormento eterno. Influências Externas e Evolução do Conceito É importante considerar que o judaísmo pré-cristianismo também foi influenciado por outras culturas e religiões da época, como o Zoroastrismo, a egípcia e a grega. Essas influências podem ter contribuído para o desenvolvimento de ideias sobre a imortalidade da alma, o julgamento final e a recompensa ou punição após a morte. Influências Egípcias: Duat: O conceito egípcio do Duat, um submundo dividido em diferentes níveis, influenciou a ideia de um julgamento final e de diferentes destinos para as almas após a morte. Livro dos Mortos: O “Livro dos Mortos” egípcio, um guia para o além, forneceu elementos para a descrição do julgamento final e da pesagem das almas. Ma’at: O conceito de Ma’at, a justiça e a ordem cósmica egípcia, contribuiu para a ideia de recompensa e punição divina na vida após a morte. Influências Gregas: Hades: O deus grego Hades, que governava o submundo, influenciou a personificação do inferno como um lugar de sofrimento. Elysium e Tartarus: Os conceitos gregos de Elysium (um paraíso para os justos) e Tartarus (um lugar de tormento para os ímpios) forneceram modelos para o céu e o inferno cristãos. Filosofia: A filosofia grega, com suas ideias sobre a imortalidade da alma e a natureza da justiça, influenciou a teologia cristã sobre a vida após a morte. Influencias do Zoroastrismo: Dualismo: A crença zoroastriana em um deus bom (Ahura Mazda) e um deus do mal (Angra Mainyu) influenciou a ideia cristã de uma batalha cósmica entre o bem e o mal. Juízo Final: A crença zoroastriana em um julgamento final no qual as almas serão julgadas de acordo com suas ações influenciou a ideia cristã do Juízo Final. Céu e Inferno: As concepções zoroastrianas do paraíso (Garadan) e do inferno (Duzaq) forneceram modelos para o céu e o inferno cristãos. No Antigo Testamento, algumas menções bíblicas sugerem a possibilidade de diferentes aspectos do Sheol ou de uma variedade de destinos após a morte. No entanto, essas ideias não eram predominantes, e o Sheol ainda era considerado o destino compartilhado por todas as almas. Aqui estão alguns exemplos para você ter uma ideia: Gênesis 37:35: “Todos os seus filhos e todas as suas filhas vieram consolá-lo, mas ele recusou ser consolado. E disse: “Não! Certamente descerei ao meu filho, lamentando, ao Sheol!” E seu pai chorou por ele.” Números 16:33: “E a terra abriu a sua boca, e os devorou com as suas famílias, e a todos os homens que estavam com Corá, e a toda a fazenda.” (Neste versículo, a tradução de “engoliu” pode ser também “desceu ao Sheol”). Salmos 6:5: “Pois no Sheol não há lembrança de ti; quem te louvará lá entre os mortos?” Salmos 86:13: “Pois grande é o teu amor para comigo, e livraste a minha alma das profundezas do Sheol.” Isaías 5:14: “Por isso o Sheol se alarga, e abre sem medida a sua boca; e descerão à sua glória a sua pompa, e a sua multidão, e o que nela exulta.” É importante notar que hoje a tradução de Sheol pode variar dependendo da versão da Bíblia. Alguns traduzem como “sepultura” ou “profundeza” e de forma mais “errônea” como “Inferno”. Para um